Kosta de Alhabaite

Nortenho, do Condado Portucalense

Se em 1628 os Portuenses foram os primeiros a revoltar-se contra o domínio dos Filipes, está na hora de nos levantarmos de novo, agora contra a colonização lisboeta!

Baluarte Dragão: chama mais um boi pelo nome



Pedro Adão e Silva dedicou-nos o seu último texto no Record. Sem nunca referir o nome do Baluarte e tratando-nos até por ‘Dragões Diário’ (um lapso e não uma provocação, esperemos…), faz uma sintética contestação à designação Liga Salazar, aqui atribuída a este campeonato e aos processos que determinarão o seu previsível desfecho. Considera “abjecta” a comparação da competição com uma ditadura e sugere “mão pesada” das autoridades sobre o nosso clube, que é o que entende que aconteceria, por exemplo, no caso de a Bundesliga ser designada pelo Dortmund de Liga Honecker, ou de o campeonato italiano pelo Milan de Liga Mussolini.

Sem querer compreender a dimensão metafórica da expressão “Liga Salazar”, PAS faz-se de desentendido e, através de uma falsa ingenuidade, revela-se ofendido e estupefacto. O literalismo que procura no nosso texto, no sentido de o refutar, demonstra como a honestidade intelectual e a independência com que escreve sobre política ao sábado, no Expresso, são olimpicamente suprimidas quando o tema é, à terça-feira, no Record, futebol.

Ainda assim, vamos tentar uma demonstração acessível para que até mesmo os mais desentendidos, como PAS, percebam.

Não, Pedro, esta liga não é a Liga Salazar pela sua faceta colonialista, tradicionalista e conservadora, nem Pedro Proença será comparado a Américo Thomaz. As suposições que o Pedro faz são absurdas e desprestigiam-no.

Há, isso sim, elementos fundamentais que nos autorizam a estabelecer esta analogia entre a Liga 2016/2017 e um regime ditatorial como o de Salazar, por estarmos, hoje em dia, a avançar rapidamente para um sistema de controlo global, despótico, que não observa a lei e é antidemocrático. Destacamos estes traços em 10 sujeitos:

1 - As relações privilegiadas e o estado de exceção que o Benfica goza face à lei e face ao poder político, traduzidas tanto no caso das claques ilegais (onde o IPDJ e Liga, em vez de cumprirem a lei, ignoram-na) como no caso das dívidas ao Grupo Espírito Santo e outros bancos falidos. Estas dívidas poderão, na globalidade do grupo Benfica e de pessoas ligadas aos órgãos e ao capital da SAD, como o próprio presidente e as suas empresas, ascender a 1099 milhões de euros. E apesar do rombo para o Estado e para os contribuintes em que resultaram estes negócios ruinosos, no último Benfica-Futebol Clube do Porto, Luís Filipe Vieira fez-se acompanhar do primeiro-ministro e do ministro das finanças. Seria tão bizarro e revoltante como ver qualquer outro envolvido nos escândalos - Ricardo Salgado, Oliveira e Costa, Dias Loureiro, Duarte Lima… - sentado ao lado de políticos com as responsabilidades de Costa e Centeno.

2 - As claques ilegais do Benfica, que têm um comportamento em tudo semelhante ao da Legião Portuguesa. Segundo André Ventura, na noite da morte do adepto sportinguista, a claque No Name Boys estava a defender o Estádio da Luz, como se de uma milícia paramilitar se tratasse.

3 – Os benefícios da arbitragem. O Benfica é, de longe e comprovadamente, o clube mais beneficiado pelos “””erros””” dos árbitros. O ano de Inocêncio Calabote (1959), a que mais tarde voltaremos neste espaço, quase poderá ser considerado vulgar face à distorção continuada dos resultados desportivos em 2016/2017.

4 - O controlo do arrière-scène do futebol, cumprindo o prometido pelo presidente do Benfica em 2002 - “É mais importante ter pessoas na Liga do que contratar bons jogadores.” Uma frase que é todo um programa político em execução.

5 - A limitação da liberdade de expressão e, particularmente, da liberdade crítica. À medida que os erros de arbitragem se foram repetindo e que se foi aprofundado a dualidade de critérios, a liberdade de denunciar e de criticar foi sendo, progressivamente, restringida. Pessoas ligadas aos órgãos de clubes passaram a ser castigadas por delito de opinião e surgiu mesmo a proposta, em vias de ser ratificada, de serem castigados todos aqueles que entenderem, no exercício da sua liberdade, criticar a prestação de árbitros. Proposta - pasmem-se - feita pelo Benfica: o único clube português que não tem interesse no tema.

6 - A cartilha. Através de extensos documentos enviados a comentadores afectos ao clube, o Benfica procura criar um discurso e pensamento únicos. Tal como nas ditaduras, este documento opera como um instrumento de controlo, de propaganda do regime benfiquista e de influência sobre a opinião pública, tão inaceitável pelo facto em si, como pelos seus conteúdos. É terrorista na forma como pretende atingir os seus adversários com mentira e difamação e indigna na forma como é propagada por algumas pessoas sobre as quais ainda preservávamos respeito e consideração.

7 – A tentativa de controlo da narrativa, através da instrumentalização de comentadores supostamente independentes, a quem o Benfica envia informações avulsas e controla indiretamente (Rui Pedro Braz e José Nunes são apenas a face visível). O poder acumulado por estas personagens “””independentes””” é quase absoluto e é usado de forma discricionária. Carlos Daniel, por exemplo, disse há dias que se recusa a falar de arbitragens e que só fala de arbitragens quem não sabe falar de mais nada. “Se não é doença, anda lá perto”, defendeu. Este é o novo discurso oficial pró-Benfica, mas a 5 de Abril de 2016, na RTP, após um jogo do seu clube, o mesmo comentador afirmou que a “dualidade de critérios do árbitro foi evidente.” (voltaremos ao tema e à personagem nos próximos tempos)

8 – A agenda vermelha dos órgãos de comunicação social nacionais, mesmo os mais credíveis. Por exemplo, após o assassinato do adepto sportinguista por elementos dos NN, o Público escreveu: “Italiano atropelado em Lisboa”, ignorando todos os factos relevantes e comprometedores para o Benfica: o contexto, o local e os autores. Dias antes, outro jornal fez um título com os Super Dragões porque um dos seus milhares de membros era o novo namorado de uma figura pública e, portanto, "culpado do divórcio."

9 - A justiça desportiva. Agora comandado por Meirim, o Conselho de Disciplina da FPF assume uma dualidade de critérios nunca antes vista. “E quem não salta é lampião”, cantado no Dragão, resulta em multa. “E quem não salta é tripeiro”, cantado na Luz, não. Brahimi profere palavras em francês a um árbitro que revela uma tendência racista e xenófoba - é castigado. Luisão, Samaris, Jonas,… insultam e agridem adversários, havendo imagens esclarecedoras quem servem de prova - nada lhes acontece.

10 - De um modo geral, sente-se um clima de sufoco e inevitabilidade, resultante do regime da Liga Salazar. Há muito que se adivinhava que, com ou sem erros dos adversários, o Benfica seria campeão. Não pelos seus bons jogadores – e tem alguns, sim –, mas pela forma como os seus erros eram sempre compensados por outros erros de arbitragem, que evitaram expulsões e penáltis-contra, bloquearam situações de perigo iminente com faltas inexistentes e foras-de-jogo mal assinalados, ignoraram situações flagrantes de fora-de-jogo,…

Já agora, Pedro, sabe porque é que o Dortmund nunca chamaria Liga Honecker à Bundesliga e o Milan nunca chamaria Liga Mussolini à liga italiana? Porque por mais escandalosas que sejam as arbitragens (presentes e passadas) nestas duas ligas, por mais corrompido que esteja o macro-sistema do futebol, a FIFA, a UEFA... nada se compara à vergonha mundial que neste momento está a decorrer, à vista de todos, em Portugal. 

Pedro Adão e Silva até pode ser um militante antifascista, mas de nada lhe servirá isso se continuar a encobrir e a legitimar com o seu silêncio as práticas ditatoriais que são indissociáveis do desfecho desta liga 2016/2017.

Em breve, este campeonato será celebrado pelos benfiquistas. Mas enganam-se redondamente se pensam que será assim tão simples, pois não se livrarão de serem lembrados, ponto por ponto, imagem por imagem, do vergonhoso processo que conduziu à sua conquista. 

E, depois, a escolha será de cada um: ou teremos o Pedro Adão e Silva de sábado, independente e livre pensador, que certamente condenaria e denunciaria tudo isto, ou teremos o Pedro Adão e Silva de terça-feira, fanático e alienado, que se sujeita a ser um mero (e confesso) difusor de cartilhas terroristas, assumindo como sua uma tarefa a que um intelectual e académico jamais se deveria sujeitar.

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